Na primeira metade dos anos 80, o lançamento do filme Blade Runner trouxe às pessoas um novo conceito de sci-fi: o cyberpunk. O cyberpunk é um movimento que se dedica à interação homem-máquina e suas implicações físicas e filosóficas no ponto de vista do ser humano, e não raras vezes, do ponto de vista da própria máquina também. Gosto de pensar que se foi Blade Runner que abriu as portas do movimento cyberpunk ao mundo, o livro Neuromancer escancarou os portões de uma vez só.

Neuromancer foi a primeira obra de sci-fi a explorar o conceito do ciberespaço e da matrix como uma alucinação em massa. Só que ao contrário do filme dos irmãos Wachowski, a matrix aqui é tratada como uma rede neural de informações, onde é possível saber tudo sobre tudo.

Os cowboys são homens privilegiados que podem andar na matrix à vontade, roubando dados de grandes corporações para seus empregadores ricos. Um desses cowboys, Henry Case, tentou ser mais esperto que seus patrões, e por resultado, perdeu suas conexões com a matrix. Vivendo numa espiral de autodestruição, drogas e comportamento suicida, Case é resgatado de uma cidade do Japão por Molly, uma bela samurai de rua que tem olhos de prata, lâminas retráteis nas unhas e não leva desaforo pra casa. Eles devem realizar um trabalho encomendado pelo misterioso Armitage. A natureza do trabalho vai sendo revelada aos poucos pelo livro e não pretendo estragar a surpresa aqui.

William Gibson escreveu aqui uma história intrigante, cujo rumo é impossível de determinar capítulo após capítulo. Sua prosa é envolvente, sagaz e de difícil acesso numa primeira leitura, tanto que faço este review depois de ter lido Neuromancer pela segunda vez. Gibson mistura elementos díspares entre si como megacidades, corporações misteriosas, loucura pós-guerra, vida pós-morte na matrix, conexões via linhas telefônicas, uma colônia de rastafáris chamada Zion (inspirando o cenário similar na trilogia Matrix) e uma inteligência artificial cuja sede é… o Rio de Janeiro!

Partindo do ponto de onde Blade Runner começou, Neuromancer ajudou a popularizar o gênero cyberpunk que até hoje é reverenciado. O cinema constantemente retira inspirações do livro e dois exemplos famosos são as séries Matrix e Exterminador do Futuro, discutindo o sempre pertinente tema do relacionamento Homem x Máquina. O livro de William Gibson é inovador e interessante, e até hoje seu estilo de ficção não foi igualado nem pelo próprio autor, que continuou a explorar o universo de Neuromancer em mais dois livros com histórias independentes, Count Zero e Mona Lisa Overdrive.

Neuromancer ganha nota máxima com certeza e mal posso esperar pela oportunidade de relê-lo.

GuValente ficou tão doidão com Neuromancer que não faz a menor idéia do que colocar no final do post.