Em 1954, o autor Richard Matheson lançou um livro que tinha uma simples premissa:  mostrar a rotina do último humano vivo na Terra em um futuro próximo depois que os demais habitantes do planeta sucumbiram à uma praga similar ao vampirismo. Matheson aproveitou a premissa para fazer um fascinante estudo de personagem, no caso aqui, Robert Neville.

O livro Eu Sou a Lenda já foi adaptado três vezes para o Cinema com enfoques diferentes de acordo com a época. Vincent Price viveu Neville nos anos 60, Charlton Heston nos anos 70, e mais recentemente o astro Will Smith deu vida ao personagem no filme lançado em 2007 e dirigido por Francis Lawrence (Constantine). Eu já vi os três filmes e li o livro. Posso afirmar com certeza que o melhor Robert Neville que eu já vi, é aquele que foi ilustrado por Elman Brown e roteirizado por Steve Niles no álbum em quadrinhos lançado pela Editora Devir em julho passado, de mesmo nome.

Apesar de ter sido publicado agora, o álbum foi lançado nos States em 1991 e pouca gente sequer sabe que existe uma adaptação de Eu Sou a Lenda em HQs. Uma pena, pois perdem uma obra prima do terror onde o roteirista Steve Niles consegue criar um clima ainda mais angustiante do que consegue em sua excelente série 30 Dias de Noite, apesar de se manter extremamente fiel ao texto original de Richard Matheson.

A solidão de Neville (desenhado de modo a lembrar levemente o ator Charlton Heston) é retratada com angústia e realismo por Niles e a cada página que passamos com ele, compartilhamos da suas dúvidas, de seus medos, de seus pesadelos, e principalmente de seus quase inexistentes momentos de alegria, como no maravilhoso momento em que Neville vê um lindo cãozinho pela primeira vez desde que a humanidade se tornou uma população de vampiros.

Vale lembrar que os vampiros de Eu Sou a Lenda são cruéis, tem mentalidade primitiva, e só querem saciar sua sede de sangue. Entre os vampiros destaca-se o personagem secundário Ben Cortman, com seus insistentes gritos de “Saia daí, Neville” à frente da casa do protagonista, tornando a vida de Robert cada vez mais desesperadora, não importa o quanto ele ouça música clássica no volume máximo ou faça revestimento acústico. Os vampiros estão lá fora e Neville não tem como fugir.

Apesar de ser uma história em quadrinhos, há poucas falas diretas dos personagens. Quase 90% do texto do livro é dedicado à narração da rotina de Neville, em quadros brancos apenas com o texto, tornando o álbum um tipo interessante de livro-gibi. A arte impactante e monocromática de Elman Brown dá o tom desolado e pessimista da narrativa, cujo final irá deixar o leitor pensativo por um bom tempo antes de fechar o livro-gibi.

Eu Sou a Lenda é a pedida perfeita pra quem gosta de terror angustiante aliado a um bom roteiro e desenhos perfeitos. Nota máxima!

GuValente iria saquear todas as locadoras da cidade se fosse o último sobrevivente da Terra.