No filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço somos transportados aos mistérios de Júpiter. No livro Uma Princesa de Marte, vamos para Marte (ORLY?). Em Star Trek e Star Wars somos transportados a vários outros planetas exóticos e misteriosos. Sem contar o sem número de sci-fi’s que se passam aqui mesmo no planeta Terra (Distrito 9, Gattaca, Blade Runner). Apesar de o cinema já ter-nos levado aos confins do Universo, e até um pouco mais além, é curioso notar como um dos corpos celestes mais famoso e próximo da Terra nunca ganhou a sua devida atenção na sétima arte: a Lua. Ela exerce um fascínio incomum no ser humano. Por estar tão perto da Terra, podemos observá-la quando anoitece. E se às vezes nós a encaramos como um mero acontecimento rotineiro, em outras vezes, ela embeleza o céu noturno e sempre nos pegamos olhando e imaginando o que pode ter ali.

O cineasta Duncan Jones estreia na função ao dirigir Lunar (Moon, no título original inglês) como um irmão mais novo de 2001, só que menos pretensioso e econômico nas tomadas externas de efeitos especiais. Jones prefere focar a história de Sam Bell (Sam Rockwell), empregado da empresa Lunar Industries que cuida da mineração de hélio-3, um componente essencial na nova política de energia renovável da Terra. Sam trabalha sozinho na estação espacial Sarang, tendo como companhia o computador GERTY (voz de Kevin Spacey) e seu inesquecível monitor frontal que revela as emoções da máquina (sim, eu disse emoções de uma máquina) através de emoticons não muito diferentes dos que usamos em conversas por MSN.

O contrato de Sam está quase no final e ele já começa a entrar no clima de fim de festa, pronto para rever sua esposa e sua filhinha, com quem se comunica através de mensagens de vídeo esporádicas. Quando um dos carros coletores de hélio-3 falha, Sam sai da estação para investigar e sofre um acidente. Ao voltar para a Sarang, ele encontra outra pessoa lá: Sam Bell. Enquanto um tenta lidar com a existência do outro, os dois precisam trabalhar juntos para saber o que está acontecendo por ali, e o mais importante, qual deles é o Sam Bell original?

Lunar lembra muito os filmes de ficção conspiratórios que reinaram nos anos 70 e início dos anos 80. Os cenários são econômicos, os efeitos especiais são feitos em miniaturas (embora o CGI apareça em algumas tomadas, é sempre discreto), o roteiro caminha a passos tranquilos, sem atropelar informações e permite uma gradual construção de atmosfera para o espectador se envolver na história do protagonista. Este que, por sinal, ganha uma intepretação excepcional de Sam Rockwell, ao retratar os dois Sams como homens diferentes. Enquanto um é mais jovial, brincalhão e menos atencioso; o outro é frio, focado no trabalho e sem tempo pra brincadeirinhas ou levar desaforo pra casa. Rockwell nos convence que apesar de os dois homens serem Sam Bell, são homens diferentes. Kevin Spacey dá uma voz paterna a GERTY, fugindo do que poderia ser uma cópia do famoso computador de 2001, HAL-9000. O personagem GERTY também tem um arco dramático forte e foge do clichê de super-computador-fica-louco-e-quer-destruir-a-nave.

Duncan Jones (que também é filho do cantor David Bowie) estreou modestamente com Lunar. O filme “só” custou 5 milhões de dólares, e causou forte impressão entre os críticos e a comunidade pela atenção aos fatos científicos plausíveis, algo que a maioria dos filmes de sci-fi não se preocupa em tomar cuidado. A direção de Jones é contida, mas imprime ritmo e intensidade dramática ao filme, não deixando cair a peteca, mesmo o filme não contendo nenhuma cena de ação. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor, em parceria com Nathan Parker.

No Brasil, Lunar foi lançado direto em DVD e já pode ser comprado ou encontrado nas locadoras. Lunar é uma nova joia da ficção científica. Moderna e ao mesmo tempo uma bela homenagem aos clássicos. A prequência, chamada Mute, já está em pré-produção e mal posso esperar para ver como Jones vai expandir a sua história. Nota máxima!

GuValente não saberia o que fazer se encontrasse um clone de si mesmo.