Nos últimos dias de 2010, Kell e eu aproveitamos a folga no trabalho para curtir um pouco o cinema daqui de Jundiaí. O grande problema foi que não havia sequer um filme da safra fantasia legendado, logo não assistimos Harry Potter, nem Crônicas de Nárnia e nem Tron, o Legado, exatamente porque a dublagem não iria nos agradar. Pois bem, o único – e solitário – filme legendado que havia na hora era 72 Horas, e agradeço desde já que fomos assistir esse suspense de tirar o fôlego, literalmente.

Pelo cartaz do filme, já podemos perceber que ele nos dará mais perguntas do que respostas durante mais de 1 hora e meia na telona, com o rosto de Russell Crowe todo recortado por fotos, indicações, como se fosse um mapa mental de algum plano calculista. E estamos totalmente certos. Crowe não está numa saga ruim de filmes, mas a crítica americana tem falado mal de seus últimos e isso assustou o público para 72 Horas, e talvez, isso tenha se refletido no Brasil, já que a sessão na qual fomos estava com meia capacidade apenas.

72 Horas (The Next Three Days) já começa acelerado, com uma cara de filme policial dos anos 80 e tudo indica que será assim pelo restante dele – como um ‘novo’ Bourne, ou quem sabe, um Busca Implacável. Ledo engano! O thriller policial dá lugar para um drama sobre família durante boa parte do filme, mas é no suspense que ele se destaca. John (Crowe) tem uma vida tranquila com sua esposa Lara (Elizabeth Banks) e cuidam da rotina do filho, entre escola e lições. Após uma discussão acalorada sobre o trabalho em um jantar, o casal volta para casa, dispensa a babá e prometem juras de amor, mesmo sem dizer uma palavra, apenas com gestos e insinuações. Quando acordam e se preparam para um novo dia de trabalho, a polícia chega à casa com uma ordem de prisão contra Lara por assassinar sua chefe.

A partir desse momento, o filme deixa o momento família de lado para mostrar ao espectador o buraco no qual John se afunda para conseguir uma decisão na justiça de que a mulher é inocente. Ou como ele pensa que é. Aos poucos, vamos descobrindo o caráter de cada personagem, o jogo pessoal que estão fazendo e, mesmo que o grande destaque seja Crowe, Elizabeth Banks se mostra uma atriz pronta para um papel mais adulto e não a sexy symbol Miri, em Pagando Bem, Que Mal Tem?. Para mim, Banks até disputou um espaço melhor com Crowe em certas partes do filme e até tenha ganho alguns.

No desenrolar de 72 Horas, vemos um John obstinado e dramático, levando até a última situação o pensamento de que sua mulher é inocente, e sem apoio de advogados ou da Justiça, sua única saída é armar um plano de resgate na prisão e fugir com sua mulher para o mais longe possível. Entra em cena a rápida participação de Liam Neeson como um ex-prisioneiro que dá dicas e ajuda como pode a abrir a mente de John e descobrir como realizar seu plano. Rápida também é a participação de Olivia Wilde como uma mãe solteira que encontra com John em um parquinho para crianças e, de certa forma, é vista como uma consciência do marido transtornado.

Por fim, a coisa que eu fiquei mais satisfeito e que gostei no filme foi de que  não há explicações para muitas das perguntas. Tudo o que o filme propõe é lhe dar a situação (John quer fugir com a mulher) sem questionar se é certo ou errado. Seu amor pela mulher é forte e o suficiente para que não haja dúvidas entre o casal, mesmo que virar fugitivos seja necessário. Uma pergunta me passou pela cabeça durante os créditos: será que eu faria a mesma coisa pela mulher que amo? E vice-versa? Por mais que a atuação de Crowe seja muita boa – dá para perceber claramente o desespero no rosto dele -, assim como a de Banks na prisão, o filme volta ao amor do casal como uma resposta para tudo. Mas quando digo isso, eu não quero dizer ‘felizes para sempre’. Nota: 9.0, fácil.

Leo Luz já fez provas de amor mais bonitas e menos fugitivas.