Hooray!

Se tinha algum lançamento literário que eu estava mais aguardando em 2010, foi sem dúvida a republicação da obra-prima da ficção científica Duna, do autor Frank Herbert. Anunciada no primeiro semestre de 2010, a publicação atrasou vários meses devido a problemas internos, mas em novembro a excelente editora Aleph, que vem se especializando em publicar ficção científica de qualidade no Brasil, publicou Duna com excelente acabamento gráfico e tradução nova e refinada nas mãos de Maria do Carmo Zanini.

E que livro, meus amigos. Que livro!

A obra, lançada em 1965, é um épico cujo protagonista é o jovem Paul Atreides. Paul é filho do duque Leto Atreides com a sua concubina, a bruxa Bene Gesserit, Jéssica. Os Atreides foram enviados para o árido planeta Arrakis (ou Duna) para cuidar da produção da especiaria melánge, que expande a consciência de seu usuário. Mas o duque sabe que esse é um ardil do imperador do universo Shaddam IV, que teme que o duque ascenda ao trono por causa de sua popularidade. Para conseguir o seu intento, o imperador recruta o barão Vladmir Harkonnen, chefe da dinastia Harkonnen cujos rivais são os Atreides. E aparentemente alheio à tudo isso, o jovem Paul descobre que faz parte de um plano maior no universo, onde ele é o centro de uma profecia Arrakina sobre um messias que vem para purificar o universo do mal. Quando as coisas em Arrakis começam a desmoronar, Paul irá despertar para o seu propósito e cumprir o seu papel no universo como o Kwisatz Haderach, o prometido.

Frank Herbert constrói em riquíssimos detalhes todos os costumes desse “novo” universo, que se passa quase 20 mil anos no futuro. Com uma precisão quase profética, Herbert detalha a política, ciência, religião e costumes desse mundo com uma maestria que se pode comparar ao grandioso Tolkien. E a comparação cabe mesmo até a estrutura do livro, que é dividido em três internamente (Duna, Muad’Dib e O Profeta), e depois da trama principal, alguns apêndices expandem o mundo de Duna, explicando a ecologia, a religião e os propósitos das Bene Gesserit, além de um glossário com os termos usados no livro.

A trama é intrincadíssima e exige atenção do leitor, pois Herbert não escreve de forma fácil. Mas ainda assim é acessível ao leitor atento aos detalhes, coisa que o autor não decepciona. Os personagens são carismáticos e pontuam toda a narrativa com os seus pensamentos, que Herbert sempre expressa no momento certo, e têm a sua própria expressão no livro, onde é possível até mesmo imaginar como seria a voz ou a maneira de falar deles, tamanha é a eficiência das descrições do autor.

Misturando elementos de thriller político, ficção científica hardcore, e momentos de pura viagem transcendental, o livro mostra uma forte mensagem ecológica através do povo dos Fremen, que vivem no deserto e consideram água a substância mais valiosa de todo o universo. É perturbador ler os detalhes de como os Fremen enxergam a água, e as implicações quase religiosas que ela tem no povo criado pelo autor.

Já levado às telas em 1984 por David Lynch, e em uma minissérie em 2000 no Sci-Fi Channel, Duna ainda está no reino dos “livros infilmáveis”, mas ambas as adaptações têm qualidades impossíveis de se ignorar, como a atmosfera onírica e o excelente elenco da versão de Lynch, e o roteiro fiel e bem estruturado da versão de 2000. Uma nova versão está sendo planejada pela Paramount, mas até agora dois cineastas já pediram as contas do projeto. Mas se o estúdio encontrar um cineasta com paixão pelo material tal qual Peter Jackson teve ao adaptar O Senhor dos Anéis, tenho certeza que Duna será um filmaço. Mas por enquanto está bom como está.

Com um enredo de tirar o fôlego, personagens carismáticos e uma ambientação magnífica, Duna é um clássico absoluto da sci-fi e 46 anos depois de sua publicação original, ainda não perdeu o prestígio inicial e ainda figura entre os maiores épicos fantásticos da literatura do século XX. Nota máxima!

GuValente é o Kwisatz Haderach, nascido em Caladan e roubará o Gom Jabbar