Hooray!

O diretor Darren Aronofsky se tornou um cineasta especializado em retratar todos os tipos de obsessões nas telas. Em “Pi“, a obsessão pela perseguição, em “Requiem Para um Sonho“, por um vício, em “Fonte da Vida“, por um ideal e por fim, no premiadíssimo “O Lutador“, Aronofsky retrata a obsessão de um homem por sua, digamos assim, arte.

Então é correto afirmar que Cisne Negro (Black Swan) é o único filme em que Aronofsky repete o tema da obsessão pela arte. Mas ao invés da luta livre, que é um esporte totalmente masculino, Cisne Negro retrata o balé, uma obra de arte feminina por excelência.

O roteiro nos apresenta à dançarina Nina Sayers (Natalie Portman), que consegue o papel de protagonista no balé clássico O Lago dos Cisnes. Mas tal protagonista possui duas personalidades, o Cisne Branco e o Cisne Negro. Enquanto o Branco é a pura inocência e fragilidade, o Cisne Negro é desejo, força e impulsividade. Nina domina a personalidade inocente, mas lhe falta o desprendimento para interpretar o Negro, fazendo com que o diretor da companhia de dança (Vincent Cassel) leve Nina até o último limite nos ensaios.

Paralelo a isso, Nina tem que lidar com a sua mãe super protetora (Barbara Hershey) que insiste em tratar a filha como uma criancinha, apesar de Nina beirar os trinta anos de idade. Ela também se preocupa com Lily (Mila Kunis, minha futura esposa, só pra constar), uma dançarina cuja vivacidade pode lhe render o lugar de Nina no espetáculo e irá atormentar os pensamentos da pobre infeliz.

Cisne Negro é um detalhado estudo da personagem de Natalie Portman. O roteiro entra em profundidade na psique de Nina. A pressão que ela sente para interpretar bem o papel é sentida pelo espectador à medida que o filme passa, e a visão de Nina sobre as coisas ao redor dela começam a ficar mais confusas e desconexas. Em momentos do filme, é difícil dizer se o que vemos é real, ou se não é invenção de Nina. A manifestação da neurose de Nina se dá na forma de uma sósia que ela vê em determinados momentos do filme agindo de forma estranha.

Em termos cinematográficos, Nina Sayers seria uma personagem ideal de um suspense de Roman Polanski (do excelente O Bebê de Rosemary) no quesito psicológico, com suas visões e um medo frequente de estar sendo observada por sua mãe. Mas os problemas de Nina não são apenas mentais. Ela aparece frequentemente com marcas de arranhões nas costas, e puxando a pele ao redor das unhas da mão. Esse tipo de suspense corporal é uma interessante alusão ao cinema de David Cronenberg e seu “body horror” usado à exaustão em filmes como Scanners, Videodrome e A Mosca, sendo este último um irmão temático de Cisne Negro. Tanto é que em uma cena do filme, o cineasta presta uma homenagem sutil e interessante ao clássico dos anos 80 do cientista que se transforma em mosca aos poucos.

Os demais atores estão ótimos em seus papéis, destacando a pequena, porém marcante atuação de Winona Ryder como uma dançarina aposentada à força, mostrando o que o futuro pode reservar para a personagem de Portman. Aliás, Natalie Portman só não vai ganhar um Oscar por esse filme se alguém na Academia estiver com sérios problemas mentais (o que eu não duvido).

Apesar da sofisticação do roteiro, e dos personagens, Cisne Negro tem momentos de puro terror, como em que Nina, torturada por suas paranóias, entra no seu quarto e passa a ter visões de vários retratos se mexendo, além de uma perturbadora visão de uma mulher ensanguentada que surge assustadora. Prepare-se para ficar com várias imagens desse filme na mente, especialmente o hipnotizante e belíssimo final.

Não deixe de conferir Cisne Negro nos cinemas e se deixar hipnotizar pela atuação nada menos que impecável de Natalie Portman, e pela direção perfeita de Darren Aronofsky, provando que para se lidar com o gênero suspense/terror, tambem é preciso uma boa dose de sensibilidade. Nota máxima!

GuValente não concorda com quem o Oscar premia, mas não perde uma cerimônia.