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Howdy!

Foi preciso coragem pra entrar na loja de HQs daqui de Jundiaí, e desembolsar 80 dinheiros pra comprar este encadernado de luxo da maxissérie Camelot 3000. Pra fazer isso, é preciso uma boa dose de loucura, falta de amor pelo seu bolso, e uma intuição aguçada para detectar bons álbuns de quadrinhos com roteiros aliados a desenhos maravilhosos. Ainda bem que até agora, essa minha intuição não falhou.

Camelot 3000 foi publicado de 1982 a 1985 pela DC Comics, como parte de um mercado diferenciado por suas maxisséries com histórias sem ligação nenhuma com os personagens da editora. A obra foi roteirizada por Mike Barr (de Batman – Filho do Demônio) e ilustrada pelo excelente Brian Bolland (de nada mais nada menos que A Piada Mortal, também com o Batman).

No ano 3000, a Terra foi invadida por alienígenas com um propósito bem simples, destruir ou escravizar a raça humana, ponto final. O centro da invasão é em Londres, onde os humanos se esforçam como podem para conter a ameaça alien. Uns combatem, outros ajudam os sobreviventes, outros pesquisam maneiras de lutar contra a invasão. Nesse cenário, o jovem arqueólogo Tom Prentice acaba de presenciar a morte de seus pais em uma ofensiva alienígena. Ao se esconder nos subterrãneos de Glastonbury Tor, Tom acorda ninguém menos que o Rei Arthur! O rei parte para Stonehenge acompanhado de Tom, para despertar o mago Merlin e assim trazer os mais importantes membros da antiga Távola Redonda à vida, mas não sem antes recuperar sua espada Excalibur.

É aqui que o roteirista Mike Barr começa a dar dimensões maiores ao seu contexto. A rainha Guinevere acorda no corpo da comandante da resistência humana; Sir Lancelot no corpo de um rico filantropo cuja mansão se torna a nova Camelot;  Sir Percival no corpo de um meta-humano irracional; Sir Galahad em um samurai em desgraça; Sir Kay em um humano sobrevivente, e Sir Tristão no corpo de uma mulher prestes a se casar. Tristão ganha mais destaque no roteiro por sua condição singular de homem preso em um corpo de uma mulher, deixando-o em dúvida de sua própria sexualidade, numa reviravolta interessantíssima para um cavaleiro do rei Arthur. Os outros cavaleiros também ganham personalidades bastantes distintas e passados igualmente interessantes.

As velhas intrigas também retornam, como o triângulo amoroso entre Arthur, Guinevere e Lancelot, e a eterna inveja da perversa Morgana Le Fay; meia-irmã do rei Arthur e principal vilã da história ao lado de Jordan Matthew, um oficial corrupto das Nações Unidas que almeja poder absoluto. O roteirista é bem sucedido em misturar os arquétipos medievais em um contexto de ficção científica, fazendo um ato puramente medieval como a nomeação de um cavaleiro com a espada no ombro surgir natural e condizente com um cenário onde alienígenas, grandes naves e tiros a laser dominam por absoluto.

O tratamento aos personagens é impecável e apesar de alguns terem mais destaque que outros, Mike Barr nunca nos faz perder tempo com eles, mantendo-nos interessados em seus dramas pessoais tão bem inseridos no contexto da simples história “Terra invadida por aliens hostis”. Os vilões aliens apesar de parecerem meros recursos de narrativa durante boa parte da história, ganham seu momento perto do fim da obra, provando que não estão ali só pra enfeitar. O roteiro ainda reserva brilhantes participações de Mordred, filho bastardo de Arthur; e Isolda, amante de Tristão, que não se importa nem um pouco com a  aparência feminina do amor de sua vida.

Quem já leu A Piada Mortal sabe que Brian Bolland dispensa comentários. Ele traz um visual bem clássico à obra com seus personagens lindamente desenhados e não é possível imaginar outro ilustrador comandando o visual de Camelot 3000.

Resumindo: uma história repleta de ação, sem sacrificar a complexidade de seus personagens clássicos. A história do Rei Arthur já foi contada de inúmeras maneiras, mas apenas Camelot 3000 ousou mostrar como seria o retorno deste personagem que até hoje povoa o imaginário não só da Inglaterra, mas do mundo todo. Nota máxima!

GuValente agradece a Leo Luz por dedicar a tirinha de semana passada a ele.

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[Quadrinhos] Magneto – Testamento


“Meu nome é Max Eisenhardt. Se alguém encontrar esta mensagem, eu sinto muito… pois estou morto… e agora o fardo é seu. Conte a minha história a todos que queiram ouvir… e até mesmo a quem não quiser. Por favor. Não deixe que este horror jamais se repita.”


Quem nunca ouviu falar em X-Men? Quem nunca ouviu falar no vilão mutante Magneto e a sua saga contra os humanos? Claro que todos os nerds adoradores de HQ’s em algum momento de sua vida, ouviram falar neste grande personagem, mas aposto que muitos poucos sabem de sua verdadeira história, nunca antes revelada. É isso que Magneto – Testamento vem contar a vocês.

Nesta incrível história, nos deparamos com o adolescente judeu chamado Max Eisenhardt. Ele e sua família vivem momentos terríveis em meio ao Holocausto, mas lutam firmes, fortes e felizes, acreditando por terem uns aos outros. Max frequenta a escola de alemães da sua cidade, é humilhado e o zombam todos os dias, porém tudo isso é compensado – e nada mais importa – quando ele encontra os olhos da menina judia Magda, filha da empregada da escola.

Diante de tanta pressão contra os judeus, Max é obrigado a largar a escola e depois de várias perseguições pela Europa dominada, ele e sua família são capturados e levados a um Campo de Concentração. Max cresce nos campos, onde horrores contra judeus acontecem todos os dias. Ele aprende a se virar e a fugir para roubar comida para seus familiares e, em meio a todo este caos, Max reencontra o grande amor de sua vida. E é ai que parece que tudo está errado.

A HQ traz um ar sombrio, com traços fortes e cores neutras do ilustrador Carmine Di Giandomenico (Homem-Aranha: Noir), destacando a Segunda Guerra Mundial e o sofrimento dos judeus. Com o roteiro impecável de Greg Pak (Planeta Hulk), em certos momentos ficamos com os cabelos da nuca em pé com tamanha descrição da trama e dos acontecimentos, ou então lhe dá um nó na garganta com sofrimento retratado, nos obrigando a engolir o choro.

Confesso que em cada página eu imaginava o personagem surtando completamente e, enfim, se entregando ao seu poder mutante de controlar os metais, matando nazistas e salvando a pessoa que ama, mas não é bem assim que a história é contada. Os quadrinhos retratam a história de uma família completamente normal, a mais humana de todas. Contam também uma história triste de um passado que nunca ouvimos falar, ou nunca demos importância.

Magneto – Testamento não é sobre um mutante e seus poderes devastadores que conhecemos. É apenas sobre a vida de um homem, seus temores, suas paixões e sua vida, completamente perdida nos campos de concentração, que este sim, se tornou o que conhecemos.

Kell adoraria ter o poder mutante de casar com o Leo

“Eu já tenho seu temor. Agora, vou conquistar seu respeito.”

Sempre que pensamos em um Orc, lembramos das criaturas horríveis que a sequencia de filmes Senhor dos Anéis nos mostrou como os Uruk-hai – detentores neutros que se vendiam por ouro de um velho rei ou de um governante, e sempre retratados como aliados ao mal. Mas nunca paramos para analisar como seria a vida deles em sua própria sociedade. É com isso em mente que o respeitado autor Stan Nicholls escreveu a trilogia Orcs, e seu primeiro exemplar saiu este ano pela Panini Books.

Com sucesso crescente, Orcs – Guardiões do Relâmpago vendeu mais de um milhão de cópias por todo o mundo, incluindo Inglaterra, Estados Unidos, Holanda, China, Rússia. E a frase inicial deste post, foi o que mais me chamou atenção para começar a ler, até porque existe uma saturação de heróis bonzinhos e que sempre resgatam a vítima. E depois deste primeiro final do livro, tenho a certeza que terei a trilogia na prateleira de casa. Um aviso aos navegantes, Guardiões não é uma história fechada, está mais para um digno começo de enredo, que eu espero (e muito) não reclamar do final da trilogia – que me lembrou em muito Senhor dos Anéis novamente. Temos todo um arco de história, um ambiente desenvolvido, mas ao longo do livro percebemos que muito ainda está por vir, até porque muitas respostas ficaram pelas páginas.

História: Saídos do terror da ficção medieval antiga para serem os protagonistas de uma conspiração universal, o grupo de guerreiros ‘search&destroy’ mais conhecidos como Lobos Cinzentos – liderados pelo capitão Stryke – está em uma misteriosa missão para sua rainha Jennesta: resgatar um cilindro de cor cobre e de símbolos rúnicos estampados, que ninguém sabe de onde veio e nem para que serve (quando sabemos se transforma no clímax do livro!). Como se não bastasse, a parte sul do mundo em que vivem, Maras-Dantia, está sendo dominada pelas raças brancas, também conhecidos como Humanos, que baseados na religião católica, partem por Maras combatendo as ‘forças malignas’ em uma espécie de Cruzada. Ao norte do continente, a Grande Geleira está invadindo o mundo, trazendo a todos uma época mortal sem precedentes.

Aos poucos, vamos descobrindo o que representa o tal artefato para a Rainha Jennesta, que importânca tem ele no mundo em que os Orcs vivem, e porque as guerras entre tribos de raças estão acontecendo. No meio de tudo isso, um personagem em especial me chamou a atenção: um xamã goblin. Ele é o ponto-chave da história, o elo que representa o pequeno fragmento de história do começo do livro para a continuação até seu final. Com poucas palavras e uma grande explicação, somos jogados para o mundo criado por Stan, caímos de cabeça e a partir daí não tem mais volta.

O que mais me surpreendeu neste livro foi em pensar como um Orc e não como um ser-humano comum. Acompanhar a jornada de Stryke e sua equipe de guerra por Maras-Dantia é fantástico, até porque em Orcs, eles não são aliados do mal, mas matam humanos assim como conhecemos nas histórias. O diferencial é que neste livro há várias respostas para isso, não é pura e simples diversão.

E quando pensamos que a jornada principal está sendo cumprida, recebemos um golpe de mestre (com o perdão do trocadilho!) que mostra a verdadeira intenção do livro: “restaurar a paz há muito tempo perdida e salvar seu povo dos asquerosos humanos” – relaxem que isso está descrito na contra-capa do livro, então sem spoilers. ;D

Infelizmente, apenas Guardiões do Relâmpago saiu no Brasil até o momento deste post, mas espero que a Panini Books continue a trilogia de Stan Nicholls. Seria uma pena disperdiçar uma ótima e fantástica história assim, até porque é raro inverter o papel e enfrentar humanos, pois ‘as lanças dos Lobos Cinzentos os espetarão como porcos nojentos. E mais ricos e mais gordos os orcs terão boa sorte!’ [trecho retirado da canção de marcha tradicional dos bandos de guerra]. Nota 9 para o começo fantástico, veremos até quando!

Leo Luz prefere enfrentar um Orc armado do que 10 kobols sujos.